Dra. Erica Maia Alvarez

Um novo horizonte científico sugere que tratar o metabolismo pode ser uma das chaves para transformar o prognóstico de quem vive com depressão, bipolaridade e esquizofrenia

Baseado em pesquisas publicadas entre 2025–2026 em Lancet Psychiatry, CNS Spectrums, Expert Opinion on Pharmacotherapy e Brain, Behavior & Immunity – Health

Imagine que a sua depressão não envolve apenas neurotransmissores como a serotonina, mas sim quue, em parte dos casos, o cérebro pode apresentar sinais de inflamação e que medicamentos originalmente desenvolvidos para diabetes podem influenciar esse processo. Isso já é uma linha de investigação científica que está crescendo.

Pessoas com transtornos mentais graves — como depressão recorrente, transtorno bipolar e esquizofrenia — vivem, em média, de 5 a 25 anos a menos do que a população geral. Esse tempo menor de vida está associado, sobretudo, a um risco aumentado de doenças cardiovasculares, metabólicas e sistêmicas. Apesar de décadas de avanços em psicofarmacologia, esse desfecho pouco se modificou ao longo do tempo.

A ciência vem acumulando evidências de que transtornos mentais graves frequentemente coexistem com diabetes tipo 2, obesidade, inflamação crônica de baixo grau e resistência à insulina. Essa associação não parece ser casual. Estudos sugerem que, em parte dos pacientes, há alterações inflamatórias e metabólicas que podem influenciar o funcionamento cerebral. Isso inclui ativação de células imunes no sistema nervoso, aumento de mediadores inflamatórios e alterações no metabolismo energético cerebral. A resistência à insulina, por exemplo, não afeta apenas o controle glicêmico; ela pode interferir em processos cerebrais ligados à energia, cognição e regulação emocional.

Pacientes com depressão e resistência à insulina tendem, em média, a apresentar menor resposta a antidepressivos convencionais. No transtorno bipolar, alterações metabólicas estão associadas a pior desempenho cognitivo, alterações estruturais cerebrais e curso clínico mais complexo. Esses achados reforçam uma ideia central:

  • O metabolismo e o funcionamento mental estão profundamente interligados, embora essa relação ainda esteja sendo compreendida.

A nova fronteira: os agonistas de GLP-1

Em 2005, foi aprovada a exenatida, um medicamento para diabetes com um mecanismo inovador: imitar o hormônio GLP-1. Hoje, fármacos como semaglutida e liraglutida são amplamente utilizados para diabetes tipo 2, obesidade, redução de risco cardiovascular, doença renal crônica, apneia obstrutiva do sono e esteatohepatite metabólica. E novas indicações seguem em investigação.

Como esses medicamentos atuam no corpo? Eles estimulam a liberação de insulina de forma dependente da glicose, reduzem o glucagon, retardam o esvaziamento gástrico, aumentam a saciedade e contribuem para melhora de desfechos cardiovasculares e renais.

Receptores de GLP-1 estão presentes em diferentes regiões cerebrais, incluindo hipocampo, amígdala e hipotálamo. Estudos experimentais, principalmente em modelos animais e celulares, sugerem que esses medicamentos podem influenciar circuitos neurais envolvidos na regulação do apetite, nos sistemas de recompensa e na plasticidade sináptica. Essas pesquisas indicam possíveis interações com o sistema glutamatérgico e fatores neurotróficos, como o BDNF (embora esses mecanismos ainda não estejam plenamente estabelecidos em humanos).

O que mostram os estudos em humanos até agora?

Um grande estudo populacional sueco, publicado no Lancet Psychiatry em 2026, acompanhou mais de 95 mil pessoas com depressão ou ansiedade em uso de medicamentos para diabetes. Utilizando um desenho em que cada indivíduo é comparado consigo mesmo ao longo do tempo, os pesquisadores observaram que o uso de semaglutida esteve associado a uma redução de aproximadamente 42% no risco de piora de desfechos psiquiátricos, enquanto a liraglutida esteve associada a uma redução menor, em torno de 18%. Houve também associação com menor risco de autoagressão. Outros medicamentos da mesma classe não apresentaram resultados semelhantes nesse estudo.

Esses dados são relevantes — mas exigem cautela.

Trata-se de um estudo observacional, que não permite afirmar causalidade (ou seja, não dá pra dizer que há uma relação de causa e efeito) e parte dos efeitos pode estar relacionada à melhora global da saúde metabólica. Os resultados sugerem que pode haver diferenças entre as moléculas dentro da mesma classe. Possíveis explicações incluem diferenças estruturais, variações na meia-vida, efeitos distintos sobre peso corporal e possíveis diferenças na penetração no sistema nervoso central. No entanto, ainda não está claro se essas diferenças refletem efeitos farmacológicos reais ou características das populações estudadas.

Os agonistas de GLP-1 têm custo elevado e acesso limitado em muitos contextos. Isso levanta uma questão importante: pessoas com transtornos mentais graves, que apresentam maior carga de doença metabólica e maior mortalidade precoce, podem ser justamente aquelas com menor acesso a esses tratamentos. Além disso, a alta demanda global tem favorecido o surgimento de alternativas não reguladas, com riscos associados.

O que ainda não sabemos

Ainda não há ensaios clínicos randomizados robustos testando esses medicamentos especificamente para depressão ou bipolaridade em populações sem indicação metabólica. Os mecanismos centrais no cérebro continuam em investigação e não é possível afirmar efeito antidepressivo direto. Além disso, há aspectos clínicos importantes a considerar. Efeitos gastrointestinais, como constipação, podem interagir com psicofármacos. Há risco de perda de massa muscular, especialmente em populações vulneráveis. Algumas moléculas apresentam limitações em pacientes com doença renal.

Sinais iniciais de farmacovigilância levantaram preocupação sobre risco de suicídio. No entanto, análises mais recentes, incluindo grandes estudos observacionais, não demonstraram aumento consistente desse risco. O estudo sueco, inclusive, encontrou associação com menor risco de autoagressão. Ainda assim, a avaliação individual permanece essencial na prática clínica.

O que emerge dessas pesquisas não é apenas uma nova classe de medicamentos com efeitos adicionais. É uma mudança na forma de compreender a doença. A saúde mental e a saúde metabólica não são domínios isolados. Elas interagem de forma contínua e complexa. Inflamação, resistência à insulina e alterações energéticas podem, em parte dos casos, influenciar o funcionamento cerebral, enquanto fatores psicológicos e sociais continuam sendo fundamentais.

Em resumo

Os agonistas de GLP-1 não são, até o momento, indicados como tratamento primário para transtornos mentais, mas representam uma nova fronteira de investigação, que pode ampliar a compreensão da biologia da depressão e de outros transtornos psiquiátricos. Se estudos futuros confirmarem esses achados, estaremos diante de uma possível expansão do modelo atual de tratamento, integrando metabolismo, inflamação e cérebro.

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