Dra. Erica Maia Alvarez

Eu sou porque nós somos

“I am because we are” — “Eu sou porque nós somos”.

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Pausem por um instante e sintam o peso dessa frase. Ela parece quase óbvia à primeira vista, mas carrega uma das verdades mais revolucionárias sobre a existência humana. Essa não é apenas uma frase de efeito — é o núcleo de uma filosofia milenar africana chamada Ubuntu, que desafia tudo o que aprendemos sobre individualidade e sucesso no mundo moderno.

E se eu te dissesse que a ideia de “você conquistar tudo sozinho” é, na verdade, uma ilusão?

A expressão original, “Umuntu ngumuntu ngabantu”, pode ser traduzida como: “Uma pessoa é pessoa através de outras pessoas.”

Não existe o “eu” sem o “nós”. Não nos tornamos humanos no isolamento — nos tornamos humanos através do encontro, da empatia, do reconhecimento mútuo. Nossa humanidade é construída em conjunto, como uma teia onde cada fio sustenta todos os outros.

Aqui está a virada filosófica: no pensamento ocidental, desde Descartes, aprendemos que “penso, logo existo” — a consciência individual é a prova da existência. Mas Ubuntu propõe algo radicalmente diferente: “Eu pertenço, logo existo.”

Minha humanidade está entrelaçada com a sua. Não sou uma ilha de consciência flutuando no vazio — sou parte de um ecossistema humano. Cada escolha minha reverbera na comunidade, cada ação tem consequências que vão além de mim. O Ubuntu transforma a ética de um exercício individual em uma responsabilidade compartilhada.

Essa filosofia nos confronta com uma verdade desconfortável: o sofrimento de uma pessoa não é apenas “problema dela” — é um problema nosso, coletivo. E o bem-estar individual não pode existir de forma sustentável sem o bem-estar da comunidade.

O Ubuntu propõe uma ética radical: da interdependência no lugar da competição, da solidariedade no lugar do isolamento, do nós no lugar do “cada um por si”. Não é ingenuidade — é sabedoria ancestral que entende algo que a modernidade esqueceu: prosperamos juntos ou fracassamos juntos.

Agora tragam isso para hoje, para o nosso mundo. Vivemos no auge da “conectividade” — redes sociais, mensagens instantâneas, acesso ilimitado a pessoas. E ainda assim, experimentamos níveis inéditos de solidão, ansiedade e desconexão.

O paradoxo é cruel: nunca estivemos tão “juntos” e tão isolados ao mesmo tempo. Temos mil seguidores, mas quantas pessoas realmente nos veem? Trabalhamos em equipes, mas raramente há encontro genuíno. Conversamos sem ouvir, compartilhamos sem nos importar.

O Ubuntu é a resposta que esquecemos de buscar. Ele nos lembra que o valor de uma vida não está apenas no que acumulamos ou conquistamos, mas no que compartilhamos e construímos juntos. Não somos medidos por nossos feitos individuais, mas pela qualidade de nossas relações.

Saúde e cuidado como prática coletiva

E quando falamos de saúde — especialmente saúde mental — essa filosofia se torna ainda mais urgente. O modelo médico tradicional trata o sofrimento como algo estritamente individual: seu problema, sua responsabilidade, sua “falha”.

Mas Ubuntu nos ensina algo diferente: ninguém adoece sozinho, e ninguém se cura sozinho.

O sofrimento é relacional. Nascemos de contextos, somos moldados por relações, adoecemos em sistemas. E a cura verdadeira acontece quando há encontro, quando há presença, quando alguém genuinamente diz: “Eu te vejo. Você não está sozinho.”

Isso transforma radicalmente o que significa cuidar. Não é apenas sobre técnicas ou protocolos — é sobre reconhecer a humanidade compartilhada. É sobre criar espaços onde as pessoas possam voltar a pertencer.

“Eu sou porque nós somos.”

Essa frase é, ao mesmo tempo, um lembrete e um convite. Um lembrete de que nossa força nunca esteve no isolamento, mas na conexão. E um convite para vivermos de forma mais consciente, mais humana, mais atenta ao fato de que cada gesto nosso — por menor que seja — constrói ou destrói o mundo que compartilhamos.

Porque no fim das contas, aqui está a verdade que o Ubuntu sempre soube: ninguém prospera sozinho. E quando um de nós prospera, ele não apenas se beneficia do sistema — ele o fortalece, criando as condições reais para que outros também possam prosperar.

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